
Sete anos fora do ar não parecem acaso quando se pensa no peso simbólico que o número sete carrega atravessando religiões, superstições, discos clássicos e narrativas de transformação: sete dias para criar o mundo, sete notas musicais organizando acordes e melodias, sete anos associados a ciclos de ruptura e reinvenção. Existe alguma coisa de ritualístico, até, nesse intervalo: é como se a Rádio Unisinos tivesse precisado desaparecer por tempo suficiente para entender o que significaria voltar em um mundo completamente diferente daquele que deixou pra trás: um mundo mais acelerado, mais saturado de informação e paradoxalmente mais vazio de escuta. Depois de sete anos em silêncio, retornar deixa de ser apenas uma reativação institucional e passa a carregar algo de reencontro, insistência e resiliência cultural.
Sete anos depois, nós voltamos porque ainda acreditamos que música não é trilha sonora de algoritmo e nem produto higienizado para playlist de produtividade. Voltamos porque em um tempo em que a cultura foi sequestrada pela lógica do engajamento vazio, pela pasteurização estética e pela falsa ideia de neutralidade nas plataformas, insistir em uma rádio universitária dedicada à escuta crítica é também um gesto político. A gente continua interessado no ruído, na margem, nos discos que não cabem nas métricas do streaming, nas cenas locais que lutam, se reinventam e sobrevivem, nos artistas que produzem linguagem antes de produzir conteúdo, e na possibilidade de fazer comunicação sem reduzir a música em trilha descartável para consumo acelerado.
A Rádio Unisinos renasce online, híbrida, atravessada pela universidade, pela rua, pelos estúdios improvisados, pelos festivais acadêmicos e independentes, pelas conversas nos bastidores e pela convicção de que rádio ainda pode ser espaço de formação cultural, encontro e disputa simbólica. Como nesse histórico de 30 anos de cultura e resistência, continuamos não querendo uma programação domesticada por fórmulas de mercado nem uma comunicação asséptica desconectada da vida real; queremos entrevistas que não são estruturadas somente por um release, programas que tratem a música como experiência social e estética, vozes femininas ocupando integralmente a programação como resposta concreta a uma indústria historicamente desigual, e estudantes entendendo que cultura também se faz na prática, no erro, na experimentação e na circulação coletiva de ideias.
Voltamos como um laboratório, arquivo vivo e plataforma de invenção cultural, tentando (re)construir um espaço onde ainda seja possível ouvir algo que não venha pronto.
Carol Govari
Professora e coordenadora da Rádio Unisinos